História da Liga

             A CRIAÇÃO DA LIEJHO FOI UM AVANÇO PARA O CARNAVAL


     A idéia de criar a Liga Independente das Escolas de Samba de Joaçaba e Herval d`Oeste, era a de seguir o exemplo do Rio de Janeiro, que doze anos antes, em 1984, sob a liderança de Luizinho Drumond, Presidente da Escola Imperatriz Leopoldinense e de Anízio Abrahão, Presidente da Beija Flor, havia criado a LIESALiga Independente das Escolas do Rio de Janeiro, formada pelas principais agremiações carioca.  A criação da Liga carioca e a construção do sambódromo foram duas das mais importantes conquistas do carnaval do Rio de Janeiro, e graças à essas iniciativas o evento se tornou atração internacional.


      Em Joaçaba, na liderança do processo de criação da LIESJHO-Liga Independente das Escolas de Samba de Joaçaba e Herval d´Oeste, estavam o Vice-Prefeito Armindo Haro Neto; o Secretário de Educação do Município Darcy Laske; o Presidente da Escola Aliança, César Junqueira; o Presidente da Escola Vale Samba, Osvaldo Colombo; o Presidente da Escola de Samba Unidos do Herval, Ricardo Nodari; o Diretor Técnico dos Desfiles, Ademar Bittencourt;  o jornalista João Paulo Dantas, Diretor de Comunicação; e o radialista Nelson Paulo dos Santos, Diretor de Promoção.


     Com a criação da LIEJHO, os desfiles das escolas de samba passaram para um outro patamar e várias foram às mudanças e as conquistas, o que conseqüentemente deu maior grandeza ao espetáculo. As escolas passaram a receber participação na venda de ingressos, nos direitos de merchandising da Avenida, e os aspectos técnicos e organizacionais surpreenderam até mesmo os mais experientes carnavalescos do Brasil, como o Dr. Hiran Araújo, Diretor de Cultura da LIESA, que esteve em Joaçaba participando de um Seminário, que marcava a criação da Liga, e depois como jurado dos desfiles.


      O primeiro passo da Liga Independente das Escolas de Samba de Joaçaba e Herval d`Oeste foi promover um Seminário sobre carnaval de desfile de escola de samba, e para tanto o então Secretário de Educação do Município, Darcy Lask viabilizou um convênio com a UERJ-Universidade Estadual do Rio de Janeiro, e esta com a RIOTUR e a LIESA para que fosse possível a vinda a Joaçaba de renomados profissionais do mundo do carnaval. Na época, o atual Diretor Cultural da LIESA, Hiran Araújo, autor de vários livros sobre Carnaval, já ficou impressionado com o envolvimento da comunidade com o carnaval, e com o nível das escolas de samba. “Olha, eu estou até surpreso com o que eu encontro aqui em Joaçaba. Com toda a sinceridade, eu não esperava ver isso, não. Vocês, realmente, estão fazendo um belo trabalho e estão de parabéns pelo nível das Escolas e da organização do evento também, e, principalmente, pela preocupação em espelhar-se no Rio de Janeiro, que é, realmente, a referência maior dessa cultura. E Seminários como este, que são raros por esse Brasil afora, mesmo com várias cidades promovendo desfiles, certamente, darão importantes contribuições para a evolução que vocês estão, corretamente, buscando, e vão servir de norte para as futuras gerações, que saberão muito bem cultivar, neste solo propício, essa tenra semente, que pelo que fui informado, foi plantada há muito anos”, destacou o historiador.


      O surgimento da Liga das Escolas de Samba se deve muito ao esforço pessoal do então Presidente da Escola de Samba Aliança, César Junqueira. Além do ótimo trabalho que ele já fazia na escola, também foi, posteriormente, um dos mais atuantes Presidentes da Liga, e um dos responsáveis pelos primeiros avanços do evento. E ele sempre teve a convicção de que, em determinado momento, era preciso abandonar a disputa direta para abraçar a união, em prol do objetivo maior, que era as escolas: “Eu acreditei, desde o início, que a melhor forma de dar grandeza à disputa das escolas, era, contraditoriamente, a união delas. Eu via, como ainda vejo até hoje, positiva a rivalidade sadia; mas, sempre defendi, com firmeza, que após os confrontos dos desfiles, que na maioria das vezes geram polêmicas, era preciso serenidade para que pudéssemos  avançar nas conquistas, que já eram muitas. Então, mesmo às vezes enfrentando discordância de algumas pessoas até  da minha escola, as minhas decisões visavam sempre o benefício coletivo, e, por isso, tenho certeza de que dei uma boa parcela de contribuição para o grande espetáculo que hoje assistimos.”


        A presença de César Junqueira, como Presidente da Liga, a participação da família Fett, como principal colaboradora da escola Aliança; e as transmissões dos desfiles das escolas de samba pela televisão, criaram um novo conceito na disputa entre as escolas, e a partir de então o carnaval de Joaçaba tornou-se o principal evento do gênero no Estado de Santa Catarina, atraindo a atenção de um público expressivo que passou a ver o espetáculo com mais entusiasmo, os assistindo na Avenida ou através da televisão.


          A Liga Independente das Escolas de Samba é, na verdade, uma entidade, de direito privada, formada através da composição de sócios permanentes individuais, os quais têm direitos a voto, como fundadores, e pelos Presidentes das escolas, entidades que são admitidas como “sócias-convidadas” Qualquer escola de samba para participar da Liga terá de ter a aprovação, a priori, dos sócios fundadores, e dos representantes legais das escolas já integrantes da entidade, e cumprir com alguns requisitos do regulamento do desfile, que prevê exigências de números de desfilantes na ala das baianas, na bateria e na quantidade de alegorias.


         Por determinação do Estatuto da entidade, a Diretoria Executiva deve ser, necessariamente, composta pelos Presidentes das escolas associadas, e todas as atividades alusivas ao carnaval são determinadas pela Liga, a quem compete a política de execução dos desfiles, dividida em administrativa, técnica e promocional. Para um dos fundadores da Liga e Diretor Técnico dos Desfiles, Ademar Bittencourt, essa formatação “foi a decisão mais acertada para que o evento pudesse ganhar a projeção que ganhou em tão pouco tempo. Sistematizar o carnaval, de forma mais profissional, foi a melhor coisa para evitar que o mesmo pudesse sofrer solução de continuidade, como já há havia ocorrido no passado, em função da falta de interesse do poder público com relação à sua realização".


       O Dr. Gilmar Antônio Bonamigo, ao assumir a Liga deu um novo conceito à entidade, criando mecanismos para a sua solidificação e profissionalização. Desde a sua posse, a participação das escolas tem sido mais acentuada, e a busca por recursos vem aumentando e há uma expressiva redução de custos para a execução do evento. Por outro lado, Bonamigo, paralelamente a reestruturação da Liga que também dar início a um projeto amplo, visando o resgate da memória do carnaval de Joaçaba. Esse processo já foi iniciado, principalmente tendo por base a criação da Liga Independente das Escolas de Samba, em 1996, com um acervo, composto por fotos, fantasias, vídeos e livros, com um pouco da história da trajetória das agremiações o que, segundo ele é indispensável e imprescindível: “Em um primeiro momento na Liga, a preocupação, mais do que justa, foi com o aspecto financeiro, para que a mesma pudesse dar mais condições às escolas e ao próprio evento. Aliás, esse aspecto é ainda muito preocupante, já que os custos para a realização e manutenção das escolas são elevados, e, portanto, não se pode ter descuido nessa área. Por outro lado, a trajetória do nosso carnaval já merece ser contemplada de uma forma mais acentuada, e nesse sentido é que pretendemos continuar, visando resgatar a história do nosso carnaval e das nossas escolas de samba, através de um acervo que possa espelhar fielmente essa realidade, e que também sirva de fonte de referência para as futuras gerações de adeptos do carnaval”, frisa Gilmar Bonamigo, Presidente da Liga Independente das Escolas de Samba.


 Artigo:
A LIGA AGREGA E TRIPLICA ESFORÇOS


    João Paulo Dantas


     Em geral, o conjunto das escolas de samba tem conseguido, ultimamente, transitar com certa normalidade pelos tortuosos e burocráticos caminhos oficiais, e tem tido razoável sucesso; sem não antes, porém, penar bastante, principalmente, pela morosidade tradicional nessa área, em que pese a utilização de táticas que não implicam em enfrentamento, e sim alianças pontuais. Em torno da Liga, as escolas se “entrincheiram” e vão ao combate da boa luta, já que a batalha em busca de recursos é sempre muito árdua e por isso elas não podem gastar munição com brigas internas. Ultimamente, de forma mais organizada, através da Liga, esse processo de busca de recursos tem se dado de maneira mais profissional, mas, individualmente, ainda falta um pouco de estruturação das escolas, no sentido de complementar os valores necessários para a produção de seus espetáculos.


       Paralelo ao malabarismo para o equilíbrio com o staff oficial, o corpo dirigente das escolas enfrenta, às vezes, polêmicas internas e externas, que dizem respeito aos quesitos autonomia e dependência, e por outro lado a negritude e o branqueamento, acrescidos da questão da tradição, e os vínculos, ou falta deles, com as comunidades. Tudo isso, numa região onde, aparentemente, os aspectos tradicionais que movem o encantamento do universo da fantasia, são desconhecidos, e deixa confusa boa parte dos próprios integrantes das escolas.


         Essas questões, às vezes, passam alheias à maioria dos integrantes das escolas e aos expectadores, em geral, que assistem tudo à distância, tendo como intermediário apenas a mídia; que também está ainda desfocada da visão histórica e cultural do mundo carnavalesco, e com isso acaba reproduzindo, aleatoriamente, uma série de conceitos, emitidos, às vezes, por quem, a priori, não tem a mínima noção do que é, de fato, a discussão em questão. Na verdade, esse confuso caldeirão de antagonismo acaba servindo para cozinhar a cultura que foi, até de certa foram, servida meio crua, motivo pelo qual ainda ela não foi devidamente digerida, criando um processo, altamente positivo, no sentido de dinamizar e processar bem as transformações necessárias, o que vai justificando, mesmo que lentamente, as alterações ocorridas, não só nas escolas como na própria estrutura de poder, que, em última instância, é a que acaba respondendo por todas as conseqüências, positivas ou negativas.


       Diferente de outros centros, onde a cultura negra, mesmo antes da projeção dela através do carnaval, disputava com as demais manifestações de origem dos colonizadores, em Joaçaba, o nascimento e desenvolvimento das escolas de samba se deram, justamente, entre as comunidades que são formadas por descendentes de alemãs e italianos, detentores, por conseqüência, da hegemonia das atratividades culturais. Aumentar o prestígio ou o reconhecimento das escolas de samba, conquistando mais espaços sociais, é sempre um dos objetivos dos dirigentes, já que essa moeda pode representar mais poder de persuasão na defesa de seus interesses nas complexas e invisíveis redes de disputas de bastidores, inimagináveis para as pessoas que apenas assistem aos espetáculos.


        A disputa, inicial, pela conquista da simpatia social, portanto, já passou para a fase da disputa pela supremacia financeira, pois com ela, principalmente no mundo da fantasia, é possível se conquistar “apoios” tão ou quase tão importantes quanto àqueles advindos dos esforços sociais, junto a segmentos considerados potenciais pelos outrora recrutadores de simpatias, e que hoje foram transformados em exímios captadores de garantias financeiras. Mas, apesar de toda essa transfiguração, que gera apoio ou discordância, há que se ressaltar que o mundo do carnaval mantém, à duras penas, uma base que não pode ser desprezada, em hipótese alguma, e que dá uma sustentação para a sua defesa intransigente: a manutenção simbólica de uma brasilidade, que traz com ela um conjunto de signos representativos da trajetória de uma raça, que é um dos pilares de sustentação da nossa identidade, portanto, algo inerente à cultura nacional. Por outro lado, como um dos aspectos mais concretos desse imaginário místico, está a fecundação de uma semente comunitária, de grande valia cultural e educacional, cujos resultados positivos, mesmo que mal absorvidos, ainda são responsáveis por boa parte da diminuição dos processos degenerativos, comuns nas áreas mais carentes das periferias.


         O percurso histórico das escolas de Joaçaba e Herval D`Oeste, apesar de alguns percalços, na condução de suas trajetórias, já deixa legados fundamentais para a construção de uma compreensão maior da cultura carnavalesca no Vale do Rio do Peixe; e uma das vertentes que poderá ser bem aproveitada desse processo, até mesmo melhor do que em qualquer outra região, caso haja razoável pequeno esforço nesse sentido, será a área “pedagógica-cultural”, onde repousam extraordinários saberes que podem ser de grande utilidade para a formação de boa parcela da população, já que as ações de cultura e arte, hoje produzidas e promovidas, atingem diferentes aspectos, o que as tornam, de fato, em exímias construtoras de ensinamentos.


       No aspecto social, ou das ações que emanam dessa área, já está consolidada a histórica tradição da salutar vivência comunitária, entre os adeptos das escolas, e a relação cordial destes com os outros segmentos, o que é um aprendizado extremo de convivência com o diferente e o com o similar, seja no aspecto de pequenos núcleos, como são as comunidades de bairros, ou até mesmo em um leque mais amplo, em que massas antagônicas podem estar envolvidas, como no caso dos desfiles, que reúnem sempre milhares de pessoas que, mesmo disputando preferências, conseguem, pacificamente, em nome da ordem pré- estabelecida, cumprirem os seus papéis. O marketing do relacionamento é um ganho extraordinário para todos das comunidades e contribui para valorizar as reivindicações das entidades, já que através do reconhecimento de seus procedimentos sociais, há um visível empenho de outros segmentos no sentido de contribuir, sempre que necessário. Por outro lado, o processo de integração, baseado na convivência, e tendo como ingredientes as referências culturais ancestrais, facilita a ponte entre a tradição e a modernidade, fazendo uma combinação de interesses que criam e recriam conceitos, o que é, fundamentalmente, o objetivo da ação educativa.


      Aparentemente, e do ponto de vista externo, a elaboração e manutenção da pacífica ação coletiva, no mundo carnavalesco, é natural e sem maiores transtornos; mas, na verdade, há, sim, conflitos que geram profundos desentendimentos e que, muitas vezes, acabam por atingir e prejudicar uma parcela significativa das forças de atuação dentro de células núcleos do processo. Por isso é que há uma luta constante, principalmente entre os integrantes mais velhos das escolas, para a preservação, mesmo que com um pouco de deturpação, de ritos da tradição, já que com base neles, e em nome de um objetivo até místico, é possível se fazer o enquadramento social no sentido da manutenção da convivência e sobrevivência das entidades, porque sem elas a lógica perderia o sentido. Para o desenvolvimento desse processo, na tentativa de assegurar coesão interna e externa, e amenizar as influências político-partidárias, que são preocupantes no amplo universo das entidades carnavalescas, pois elas podem até atrelá-las ou desestruturá-las, o caminho mais fácil é a descentralização das instâncias de poderes, através de comandos decisórios diferenciados, e o salutar estímulo à democracia. O aspecto político mais interessante, e estimulado constantemente no interior dos barracões, e que faz parte de uma concepção pedagógica, é o da organização política representativa das escolas, para que se possa ter mais força para fazer alianças com outros segmentos da sociedade e, conseqüentemente, assumir, de fato, direitos e deveres.


      A criação da Liga, por exemplo, é fruto dessa preocupação organizativa, e representa importante fórum de debates na luta pela manutenção ou ampliação de suas conquistas, e fundamental para inibir tendências de parcialidade em prol de determinadas correntes partidárias, com isso coibindo o paternalismo e o clientelismo políticos. Para a manutenção dessa postura entre os componentes das escolas, existe como que uma espécie de ISO ético e moral invisível; um manual no qual estão as rígidas normas que, segundo os dirigentes, são indispensáveis para a manutenção da unidade.